lundi 19 février 2018

Nas terras Galante, Joca King é Rei !

Há dois anos você chegava ao mundo Joca King, o mais novo rei da casinha. Sabe Joca, você vai ouvir muito essa história, mas hoje vou deixá-la registrada para que leia quando quiser...
A tia Crys mora do outro lado do oceano, e veio de avião quando soube mais ou menos quando você chegaria. Talvez você já saiba como chama esse pássaro grande e barulhento de lata que passa no céu de vez em quando.
E quando eu começava a sobrevoar as terras brasileiras, você avisou a mamãe que ia chegar. Ela estava tranquila, pois a tia Crys que tinha prometido ajudá-la já estava chegando. Talvez você tenha sentido e aproveitado a deixa.
O destino quis que eu não sentisse você ainda na barriga da mamãe, mas que o visse no dia da minha chegada, ainda meia zonza de tanta emoção e da longa viagem. Sabe Joca, eu nunca vou esquecer o que senti nesse dia, foi como se um grande sonho meu, que eu dividia silenciosamente com a sua mãe, se realizasse. Acho que só senti algo assim quando seus primos nasceram... um treco que a gente chama de amor incondicional.
E, como numa história inventada de filme romântico, a gente se cruzou, mas em lados opostos na estrada. Talvez tivesse que ser assim, pra mamãe e o papai viverem plenamente e tranquilamente a sua chegada.
Naquele dia, quando te peguei no colo e senti seu cheirinho doce de bebê o tempo parou e se eternizou. Dali uns dias dormi sentada com você no colo, pra mamãe descansar. Você não se lembra, mas eu vou lembrar pra sempre. E do bom humor da sua mãe até quando acordava de madrugada caindo de sono. Uma lição pra mim !
Nas primeiras batucadas ouvindo Palavra Cantada, no seu olhar profundo que se perde ao longe, na sua expressão autêntica e pura de criança, vou te vendo crescer de longe e te amando mais e mais.

Que esse seu olhar profundo alcance longe, te ajude a entender o porque das coisas da vida. Ela é linda Joca, você vai ver...

dimanche 18 février 2018

Surpresas da máquina humana

Neste primeiro final de semana de férias de inverno e o Iago teve a oportunidade de participar de um Atelier de Human Beatbox, no conservatório onde tem aula. Esse tipo de proposta musical extrai ritmos e sons do corpo humano, imitando instrumentos.
Uma tarde inteira de trabalho de ritmo no sábado, e mais toda a manhã do domingo. Fomos convidados pra assistir o resultado de tudo isso.
Seis alunos, guiados pelo "maestro do ritmo" se expressaram com sensibilidade, concentração e sintonia. O ritmo que seguia o tempo, que mudava, se transformava em outros, sem portanto perder o fio do todo. Cada participante podia usar ou não seu instrumento, neste caso, todos de cordas : violino, alto, violoncelo e contrabaixo. E enquanto tocavam algo em seus instrumentos, executavam outra melodia com a boca. Os gestos do maestro dirigiam a concentração de cada um deles de forma impressionante, no ar pairava uma atmosfera de atenção intensa. E essa meia hora impressionante terminou com a liberdade dos solos de cada um, e da cumplicidade leve que circulava no grupo de jovens.
Ainda me pego boquiaberta, impressionada cada vez mais com a capacidade dessa nossa máquina, que usamos tão pouco, cuidamos tão raramente e desconhecemos os limites.
Até aonde será que vai a capacidade humana ? Quantos mistérios ainda desconhecemos sobre nós mesmos ?     

samedi 17 février 2018

Nostalgia do simples

Estou aqui sentada na sala de jantar, sentindo o sol se pôr no meu rosto através do vidro. Seu calor é artificial, combinado com o aquecimento do apartamento, mas já tá de bom tamanho pra quem tem visto tão pouco o astro-rei. Melhor seria estar à beira mar, lá onde tudo é harmônico e favorável pra uma perfeita qualidade de vida, ao balanço das ondas do mar, da brisa salgada e perfumada de alga, da musica única que nos presenteia o oceano.
Foi assistindo um documentário chamado Given, que voltei por alguns instantes à essa vida simples, que experimentávamos viajando quando os meninos eram pequenos. As lembranças são tão frescas e repletas de cheiros e gostos, que voltaram assim que ouvi a narração do pequeno que acompanhava seus pais viajando em busca do Grande Peixe. Na sua visão tão pura e limpa de criança, sem artefatos, relembrei quantos momentos simples e profundos vivemos.
Posso falar de muitas delas, mas queria lembrar hoje da viagem que fizemos subindo a Costa Norte de Salvador, a Linha Verde. Foi em 1999, pois o Ariel ainda tinha 11 meses, e o Hector menos de 2 anos.
Com o carro do nosso amigo Nena, parávamos aleatoriamente nas praias, encalhando em estradas de areia, descobrindo cantos intocados, aldeias de hippies, céus estrelados. Não tínhamos reserva de hotel, procurávamos ao anoitecer. Conheciamos duas praias por dia, e entre elas os meninos faziam a siesta. Ariel engatinhava e comia muita areia, Hector desenhava o dia inteiro na areia e corria brincando em liberdade. Dos tucanos que nos acordaram em Mangue Seco e da Moqueca de Camarões recém pescados de Boipeba, fica a vontade de voltar a essa vida simples, desapegada, vivida a cada instante.
Vai ficando claro que o supérfluo e a superficialidade que nos rodeia nos distancia desse tempo vivido, tempo que exercita a paciência, como a da procura incansável do "Grande Peixe".
Espero poder voltar a experimentar esse desapego antes de ter meu rosto coberto de linhas, como indamente o menino Given definiu um homem idoso que encontrou em seu caminho.

vendredi 16 février 2018

Douceur bienveillante

Se eu pudesse, escreveria uma carta ao M. Yves Duteil, que nunca tinha ouvido falar até hoje. Cantor francês, festeja seus 45 anos de carreira, e se diz militante da doçura. Fiquei intrigada com esse termo, e de como ele mexeu comigo no dia de hoje. 

Uma doçura que eu manifestava se perdeu pouco a pouco, foi sorrateiramente substituída por um grito; vencido por antecipação. Pois, M. Dutiel, como homem, é fácil militar pela doçura. A doçura da feminilidade, não rendeu frutos. Essa doçura nos traiu. Nos iludiu e nos distanciou do respeito. Criou uma imagem de fragilidade e dependência.
E o grito, ah, o grito também não resolveu nada. Quem ganha no grito ? A gente não ganha, mas pelo menos é ouvida. Infelizmente é preciso gritar pra ser ouvida nos dias de hoje. E cansa, cansa muito, ter se distanciado de uma outra doçura, mais intima, natural, que não era carregada de rótulos, mas que situava. Só agora vejo que não são as mesmas. Sinto isso profundamente.
Você, M. Dutiel, conseguiu de uma certa forma se aproximar de uma doçura espiritual. E quando eu o ouvi, senti imediatamente : sua conexão interior, com o que é frágil e forte ao mesmo tempo, cuja preciosidade você reconhece.
Sim, essa doçura misteriosa ainda mora em mim, posso sentir. Ela esta somente à espera para se manifestar. E, enquanto ela não encontra espaço, vou me esgotando pelo grito, sem encontrar um equilíbrio.

"Quelles que soient nos religions, nos croyances ou nos cultures, nous portons ce mystère comme une étincelle… C’est un mot d’amour, la graine d’un fruit, un pollen invisible qui féconde la terre et attend la saison propice pour germer, grandir et prospérer. C’est une pensée dans un jardin, une oasis peut-être ? Une espérance. "

"Sejam quais forem nossas religiões, nossos credos ou culturas, nós carregamos esse mistério como uma chama...É uma palavra de amor, o grão de um fruto, o pólen invisível que fecunda a terra e espera a estação propícia para germinar, crescer e prosperar. É um pensamento num jardim, um oasis talvez ? Uma esperança."


jeudi 15 février 2018

De l'obscurité jailli la lumière

Um programa mostrava lugares paradisíacos da Africa do Sul : aguas transparentes que cercavam praias de montanhas rochosas impressionantes. Uma delas, numa ilha, abrigava a prisão onde Nelson Mandela passara 25 anos de sua vida. Não tenho idéia como alguém consegue sair relativamente ileso após viver 25 anos prisioneiro. Mas, no instante que ele afirmou "Da escuridão jorra a luz", pude pressentir como conseguira sobreviver. Em mim, ressoou como se,  nas profundezas de uma situação de tamanha escuridão, não houvesse nada mais fácil de jorrar do que a luz. Como se nada pudesse ser mais presente na escuridão do que um infimo raio de luz. Foi tão claro !
Sinto que os opostos só podem existir plenamente pois têm um ao outro, e mais que isso, na afirmação de Jean Paul Sartre : "Plus claire la lumière, plus sombre l'obscurité...Il est impossible d'apprécier correctement la lumière, sans connaître les ténèbres"...
Que quer dizer : "Quanto mais clara a luz, mais sombria a escuridão...é impossível apreciar corretamente a luz, sem conhecer as trevas."

Cada um de nós possui suas trevas, isso é algo que não podemos negar. Outra, é que temos medo delas, de nos aproximarmos e sermos engolidos pelas nossas próprias angustias. O que me intriga é que, se procuramos tanto a luz, por que não vemos que o unico caminho  é reconhecermos esse lado obscuro que nos habita; seja quando as circunstâncias nos impõem, seja nos aproximando, voluntariamente, o que é muito dificíl.  Diria que na verdade, não temos essa capacidade.
Mas ainda tenho fé que há um gesto mais natural que poderá diluir esse medo pra que apreciemos de forma justa a escuridão de nossas trevas.

mercredi 14 février 2018

Love is in the air

Eles entraram no vagão da linha 6 já chamando a atenção. Espera, Saint Valentin não é só amanhã ? Mas desde quando é preciso data pra amar, Crystiane ?
Ele, com seu gorro de rena do nariz vermelho e chifres brancos em feltro, de cara, me arrancou um sorriso. E como lhe caía bem... Ela, o olhava com um sorriso de canto de boca...
O espaço era deles, dançavam entre os canos, ao sabor do balanço do trem. Eu já nem disfarçava mais, observando cada segundo pra não perder o clima entre os dois.
Acho que até a Torre Eiffel deu uma piscadinha quando passamos sobre o Sena, testemunhando o Amor. Ta bom, talvez nem o seja ainda, talvez só seja aquele turbilhão de emoções que chamamos paixão, da descoberta de algo que ainda não tem forma, e talvez nem venha a ter um dia... talvez seja daquele instante e nada mais, talvez seja do meu olhar a enxergar uma possível cumplicidade que pode vir a ser... 
E girando se beijavam e deixavam fusionar a respiração, o frescor das sensações compartilhadas.


Os sapatos de couro marrom desceram em Cambronne, levando com eles os coraçõezinhos pairando no ar... e deixando ar mais leve, abrindo mais espaço para amar. 


"Pela luz dos olhos teus", Tom Jobim e Vinicius de Moraes

mardi 13 février 2018

Exercendo um outro olhar

Falando com meu pai no skype hoje, ele me perguntou o porquê de eu ter retomado a escrita, e mais precisamente, ter encarado esse desafio. 
Há exatos dez dias acompanhando as aventuras da minha querida Jany, disse à ela o quanto suas histórias me enchiam de esperança e eram um sopro de vida. Ela então sugeriu que eu entrasse no embalo, me contando a história de um livro da autora americana Raquel Raomi Remen, onde um paciente é aconselhado a anotar uma coisa que o tivesse emocionado ou inspirado a cada dia. O processo não foi fácil para ele, que havia uma profissão delicada, mas aos poucos ele começou a reparar nas coisas a sua volta de um outro jeito. Rapidamente senti um impulso em fazer o mesmo, como uma necessidade. E mesmo dizendo a ela que andava meio desanimada pra escrever, ela afirmou com doçura que não esquecera que eu era escritora, pois tinha olhos e coração sensíveis.

Me impus então esse desafio, pois não tem sido sempre fácil, apesar de nunca ser impossível : escrever 15 linhas todo dia, sobre algo que me tocou, independente da forma. E sinto que algo que aparece negativo pode se transformar em algo muito positivo, um aprendizado pra mim.
Penetrando em mim com uma exigência de aprender com o mínimo, com o que esta escondido, quase invisível, me fortaleço, me esclareço e cresço.
Se puder tocar os outros nesse processo, desejo profundamente que a energia que me exige esse esforço de escrever chegue até vocês. 
Pura e simplesmente.